
justificando
As olheiras estão às margens da visão. Vez ou
outra alcanço através delas o que os olhos solitários não poderiam capturar.
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Lu, 22 anos, divorciada da História, na
tentativa de reatar com as máquinas, Concrete Jungle, Pernambuco, Brasil.
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-- Sexta-feira, Abril 24, 2009
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Sinto que o estou perdendo para ele mesmo. São cada vez menos sorrisos e nunca uma boa risada. Esconde detrás dos óculos escuros as minúsculas janelas de sua alma. Dentro dele há mofo e uma porção de coisas que brotam da umidade (chamei sua atenção, mas as cortinas continuam fechadas).
Eu o amo e tento arrancar-lhe desabafos: é inútil. Está tão trancado quanto os segredos do Vaticano. Peço que dispa as calças e salpico beijinhos em seu ventre. Como encontro o esconderijo de seus pensamentos? Que botão aperto para pôr fim a esta maldita discrição? Contorno seu umbigo com a ponta da minha língua. Ele sorri sem gosto, como quem apenas mostra os dentes.
*postado por: Lu , ás 7:41 PM .
-- Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
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Meus últimos dias foram de Polanski. Assisti “A Dança dos Vampiros” e fiquei tentada a ver mais trabalhos seus. Foi aí que cheguei a “Lua de Fel” e “Tess”, únicos novos títulos que a locadora dispunha para mim, pois já havia visto “O Bebê de Rosemary” e “O Pianista”.
Não posso omitir meu prazer com o terror bem-humorado do clássico “A Dança dos Vampiros”. O filme surpreende por tratar o tema de maneira inusitada, na medida em que, sem sacrificar o clima envolvente do terror, junta à trama traços da comédia, alcançando assim um resultado único.
*postado por: Lu , ás 3:41 PM .
Para mim, tudo isso é novidade, mas não posso omitir: não gostei da maneira como Hitchcock tratou a psicanálise em Quando fala o coração e em Marnie - confissões de uma ladra. Não sejam tão duros quando me corrigirem, se acaso o fizerem, amantes de Hitchcock, pois falo de minhas primeiras impressões e não estou certa de que não possa ser apanhada no erro.
Acho que Hitchcock, fascinado pela descoberta de Freud, acabou, principalmente em Quando fala o coração, explicando de maneira muito direta a complexidade dos problemas pelos quais passavam seus personagens. Foi justamente isso que ficou a batucar em minha cabeça: em casos pouco ou nada simples, a psicanálise alcança mesmo resultados tão exitosos por caminhos simples e demasiadamente rápidos? A realidade me diz que não. Nos dois filmes, as explicações me pareceram mecânicas e a cura para as enfermidades dos personagens, por consequencia, muito certa.
*postado por: Lu , ás 3:41 PM .
Sobre Laranja Mecânica
“Engraçado, emocionante, político, satírico, assustador, musical, cômico, sardônico, emocionante, metafórico, bizarro” - assim diz a chamada para Laranja Mecânica, no inusitado trailer para o cinema. Um conjunto de adjetivos excelentemente empregados, que fique claro. E digo isso sem o menor traço de exagero.
Stanley Kubric começa o filme apresentando a vida do “pequeno Alex”. Alex não é rico, embora não lhe falte nada. Ele vive com sua mãe e pai e divide seu tempo entre passeios noturnos à leiteria favorita, música clássica e divertidas atividades onde extravasa a chamada “ultraviolência” junto aos seus amigos. Nestas atividades, Alex espanca mendigos, rouba... E embora possa conseguir sexo com o consentimento das mulheres, não abre mão do estupro. Eis o dia-a-dia de um indivíduo que não reprime a violência dentro de si (talvez seja esta a diferença entre Alex e os “cidadãos de bem”).
Em uma de suas felizes atividades, Alex é pego. É julgado e condenado a quatorze anos de reclusão. Como o próprio Alex, narrador da história, classifica, a parte “chorosa” do filme tem início aí. Passa dois anos preso e, sedento pela liberdade, propõe-se a ser cobaia da Técnica Ludovico, que consiste em impossibilitar os criminosos de cometer maldades por meio de uma terapia de aversão. A técnica utiliza uma combinação de filmes de violência e drogas, que acabam por condicionar o indivíduo a reagir mecanicamente com fortes dores aos impulsos violentos ou sexuais.
Posto em liberdade, Alex não é mais o mesmo. Transforma-se num animal frágil e acuado, recebendo patadas e todo tipo de maus-tratos daqueles a quem já fez mal. Está impedido de reagir. Qualquer inclinação à violência lhe faz sentir dores paralisantes e uma forte náusea. O governo alardeia a descoberta da cura do crime: a maravilhosa Técnica Ludovico! O criminoso submetido à cura “é impelido para o bem, paradoxalmente, por ser impelido para o mal”, propagandeia o Ministro do Interior. Assegurar a tranqüilidade ao cidadão de bem, acabando com a criminalidade, é o carro-chefe para a reeleição do Governo. As prisões não seriam mais para os delinqüentes comuns, que seriam todos curados com a técnica do futuro, mas para os presos políticos.
Desprovido de livre-arbítrio, Alex “deixa de ser um malfeitor, mas deixa de ser uma criatura capaz de escolha morais”, segundo o padre que o acompanha na prisão. Em nenhum momento, o filme mostra que a ausência do ato maléfico seja o bem. Muito pelo contrário. Alex segue sonhando com o “entra-e-sai” selvagem. Ao final do filme, um teste com slides mostra a velha “ultraviolência” ainda viva nele.
Manipulado de um lado, manipulado do outro. A oposição utiliza Alex para desgastar o governo, fazendo com que apareçam os limites e a crueldade da técnica Ludovico da maneira mais bizarra. Alex então vira vítima. A imprensa alardeia seu sofrimento e os pais, que o haviam rejeitado após ser solto, lhe pedem desculpas. O Governo se enfraquece. O caso de Alex mobiliza a sociedade. Para não comprometer de vez a reeleição, o ministro cede favores a ele em troca do uso de sua imagem.
De um lado está Alex, cheio da velha maldade, mas impedido de praticá-la. Do outro o Estado, tão violento quanto o jovem, mas munido de todo o aparato para alcançar seus objetivos.
Laranja Mecânica é um filme completo de cabo a rabo, ou de “iabo” a rabo. Embrenhar-se nos tortuosos caminhos da personalidade humana e observá-la dentro da hipocrisia social de uma Londres futurista (bem parecida com a realidade encontrada em todo o mundo, atualmente), escancarando o resultado em uma narrativa de qualidade, não é tarefa fácil. Mas não é por pouco que Laranja Mecânica é tão aclamado.
*postado por: Lu , ás 3:39 PM .
-- Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
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Obama e sua relação especial com o sionismo...
“Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.
Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: ‘Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime’.”
Dezembro 31, 2008 by José Saramago em http://caderno.josesaramago.org/
*postado por: Lu , ás 1:57 PM .
-- Terça-feira, Novembro 25, 2008
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Há tempos não escrevo sobre filmes. Tenho preferido reservar-me ao prazer de assisti-los e resenhar sobre o que senti apenas nas engrenagens das idéias, deixando todo o resto a cargo dos especialistas na área. Acontece que um bom filme tocou-me de maneira simples, mas especial. E essa simplicidade ficou ainda mais bela por que a encontrei num musical, um gênero que é geralmente – ao menos em minha singela opinião – tão marcado pelo inverossímil.
Ano de Lançamento (Irlanda): 2006
“Apenas uma vez” (Once) é um filme de John Carney, embora um pedaço dos envolvidos no projeto tenham deixado sua marca na história. John tinha uma idéia singela, mas que lhe parecia perfeita: contar a história entre um cara que tocava nas ruas de Dublin e uma jovem mãe. Nada de grandes tensões ou construções de ápices dramáticos. Não. A coisa iria acontecendo naturalmente e em ritmo próximo ao real.
A naturalidade de Once tornou-lhe verossímil, mas não lhe arrancou a poesia. A movimentação distante das câmeras, o acúmulo que o diretor tinha sobre música (John Carney também é músico)... Muita coisa contribuiu. E ainda mais: o cara que interpreta o músico de rua (Glen Hansard) é o mesmo quem compôs as canções e as interpretou no filme. Marketa Irglova, interprete da pianista sem piano, era amiga de Glen (e foi indicada por ele ao papel), que por sua vez conhecia John Carney há anos e já haviam tocado na mesma banda.
Um orçamento pequeno e um roteiro que permitia escapar das pressões dos grandes produtores. Para os personagens principais, escalaram músicos que interpretariam músicos. O resultado não ficou ruim. Era um musical, e em boa parte do tempo Glen Hansard e Marketa fizeram o que sabiam fazer: tocar.
O filme até me deixou à vontade para escrever. Vale a pena conferir.
*postado por: Lu , ás 9:50 PM .
-- Domingo, Novembro 09, 2008
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O burburinho dos ambulantes e as risadinhas das crianças seguem ecoando em meus ouvidos. Descalço os tênis encharcados entre “olha a ostra” e rarrarrás remanescentes. Sabia que não devia tê-los calçado. Previ que ondinhas rebentadas me alcançariam os pés, que em seguida a areia iria aderir à água salgada e que no fim tudo ficaria uma sopa. Contrariando as previsões, fui com os tênis à praia.
Estava desconfortável e envergonhada nos velhos tênis ensopados. Ainda assim, em um momento daquela manhã vermelha de sol, não houve blá-bá-blá de bêbedo, berros de ambulante ou sequer sinal da existência de crianças. Por um momento estive com os pés gelando sobre o granito frio, ainda que continuassem molhados e sujos naquela praia. Foi quando ele me veio à cabeça. E eu despertava assustada num amplo salão negro, separada do chão apenas por um insatisfatório edredom. E aí o encontro dormindo bem ao meu lado: seu rosto estava ensopado. Gotículas que adivinho salgadas ornamentavam-lhe o rosto moreno. Soube que eram de suor, apesar da baixa temperatura no salão.
E então baixo os olhos e não vejo minhas roupas. Descubro-me semi-nua, coberta por um camisão que não recordo de ter vestido. Pela estampa verde de lagarto, reconheço que a camisa pertence a ele, embora não imagine como viera parar em mim.
Ele respirava cansado e suava. Pelo semblante, devia estar sonhando. Talvez estivesse imaginando-se numa praia apinhada de gente. E na praia o sol quase varava seu corpo, de tão forte e escaldante. Ele dispersa a atenção entre uma negrinha de biquíni azul e um vendedor de ostras escandaloso, enquanto incomoda-se com os tênis pesados de água nos pés.
*postado por: Lu , ás 6:25 PM .