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As olheiras estão às margens da visão. Vez ou outra alcanço através delas o que os olhos solitários não poderiam capturar.
 

 

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Lu, 22 anos, divorciada da História, na tentativa de reatar com as máquinas, Concrete Jungle, Pernambuco, Brasil.
 


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-- Terça-feira, Novembro 25, 2008 --

Há tempos não escrevo sobre filmes. Tenho preferido reservar-me ao prazer de assisti-los e resenhar sobre o que senti apenas nas engrenagens das idéias, deixando todo o resto a cargo dos especialistas na área. Acontece que um bom filme tocou-me de maneira simples, mas especial. E essa simplicidade ficou ainda mais bela por que a encontrei num musical, um gênero que é geralmente – ao menos em minha singela opinião – tão marcado pelo inverossímil.


Ano de Lançamento (Irlanda): 2006

“Apenas uma vez” (Once) é um filme de John Carney, embora um pedaço dos envolvidos no projeto tenham deixado sua marca na história. John tinha uma idéia singela, mas que lhe parecia perfeita: contar a história entre um cara que tocava nas ruas de Dublin e uma jovem mãe. Nada de grandes tensões ou construções de ápices dramáticos. Não. A coisa iria acontecendo naturalmente e em ritmo próximo ao real.

A naturalidade de Once tornou-lhe verossímil, mas não lhe arrancou a poesia. A movimentação distante das câmeras, o acúmulo que o diretor tinha sobre música (John Carney também é músico)... Muita coisa contribuiu. E ainda mais: o cara que interpreta o músico de rua (Glen Hansard) é o mesmo quem compôs as canções e as interpretou no filme. Marketa Irglova, interprete da pianista sem piano, era amiga de Glen (e foi indicada por ele ao papel), que por sua vez conhecia John Carney há anos e já haviam tocado na mesma banda.

Um orçamento pequeno e um roteiro que permitia escapar das pressões dos grandes produtores. Para os personagens principais, escalaram músicos que interpretariam músicos. O resultado não ficou ruim. Era um musical, e em boa parte do tempo Glen Hansard e Marketa fizeram o que sabiam fazer: tocar.

O filme até me deixou à vontade para escrever. Vale a pena conferir.

*postado por: Lu , ás 9:50 PM .

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-- Domingo, Novembro 09, 2008 --

O burburinho dos ambulantes e as risadinhas das crianças seguem ecoando em meus ouvidos. Descalço os tênis encharcados entre “olha a ostra” e rarrarrás remanescentes. Sabia que não devia tê-los calçado. Previ que ondinhas rebentadas me alcançariam os pés, que em seguida a areia iria aderir à água salgada e que no fim tudo ficaria uma sopa. Contrariando as previsões, fui com os tênis à praia.

Estava desconfortável e envergonhada nos velhos tênis ensopados. Ainda assim, em um momento daquela manhã vermelha de sol, não houve blá-bá-blá de bêbedo, berros de ambulante ou sequer sinal da existência de crianças. Por um momento estive com os pés gelando sobre o granito frio, ainda que continuassem molhados e sujos naquela praia. Foi quando ele me veio à cabeça. E eu despertava assustada num amplo salão negro, separada do chão apenas por um insatisfatório edredom. E aí o encontro dormindo bem ao meu lado: seu rosto estava ensopado. Gotículas que adivinho salgadas ornamentavam-lhe o rosto moreno. Soube que eram de suor, apesar da baixa temperatura no salão.

E então baixo os olhos e não vejo minhas roupas. Descubro-me semi-nua, coberta por um camisão que não recordo de ter vestido. Pela estampa verde de lagarto, reconheço que a camisa pertence a ele, embora não imagine como viera parar em mim.

Ele respirava cansado e suava. Pelo semblante, devia estar sonhando. Talvez estivesse imaginando-se numa praia apinhada de gente. E na praia o sol quase varava seu corpo, de tão forte e escaldante. Ele dispersa a atenção entre uma negrinha de biquíni azul e um vendedor de ostras escandaloso, enquanto incomoda-se com os tênis pesados de água nos pés.

*postado por: Lu , ás 6:25 PM .

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